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Transportador diz que tabelamento do frete pautou o setor pela improdutividade

01/10/2018 21h52 Atualizado em 08/10/2018 10h55
 

Por Maria Alice Guedes

malice@transpodata.com.br

            

 

Luis Felipe Machado (30 anos), Diretor Comercial e de Planejamento da Transportadora Formato, graduado em Administração de Empresas, pós-graduado em Marketing com especialização em Gestão de Negócios, fala sobre sua trajetória como empresário de transportes, tabelamento de frete, investimento em tecnologia, veículos elétricos, infraestrutura e expectativas políticas e econômicas para o Brasil.

A Formato Transportes atua no segmento de cargas fracionadas e de lotação para produtos químicos, embalagens e varejo na região Nordeste do país. Com matriz em Guarulhos (SP), a transportadora tem um faturamento de R$ 25 milhões por ano, uma carteira pulverizada de clientes, 45 funcionários, frota de 15 caminhões, e conta com filiais em Vitória da Conquista (BA), Salvador, Santo Antônio de Jesus (BA), e Recife. 

Luis Felipe Machado é responsável pela gestão do negócio, juntamente com seu pai que foge à regra dos que começaram na boleia do caminhão, e acumula a experiência de quem começou como contratador de serviços de transporte na indústria para depois trabalhar como prestador de serviços de transporte. "Minha jornada no setor teve início em 2006, trabalhando com meu pai, enquanto cursava a faculdade. Aprimorei conhecimento em planejamento e custos, trabalhando na área financeira de bancos, e depois retornei ao segmento de transporte em 2010 para ser parceiro do meu pai, com quem tenho um relacionamento muito bom e uma conversa sincera. Ele tem embasamento. E mesmo sem formação acadêmica, aprendo com sua formação de vida, experiência em negócios e conhecimento dos clientes. Eu trouxe a tecnologia e novas ferramentas de gestão, além de um relacionamento mais aberto com os colaboradores para aprimorar e agregar valor à nossa empresa", analisa. 

A visão crítica do jovem empresário a respeito dos desafios do mercado de transporte, comprova a experiência de quem já teve de enfrentar significativos impactos econômicos. Ele comenta sobre a expansão da frota de caminhões incentivada principalmente pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), pelo qual o BNDES financiou a aquisição de 770 mil veículos entre 2009 e 2016 para transportadoras e caminhoneiros autônomos com juros subsidiados de até 2% ao ano e prazo de até oito anos para pagar. “Naquela época, tivemos uma chuva de financiamentos com taxas atrativas e nos empolgamos em ampliar o patrimônio e atender a tudo o que existia no mercado, como se isso fosse a solução do nosso negócio. De fato, não usamos a inteligência. Toda vez em que há uma oferta maior do que a demanda, a tendência é os preços caírem pela regulação do mercado”, afirma. 

Tabelamento do Frete 

Entre 2009 e 2016, tivemos uma chuva de financiamentos com taxas atrativas e nos empolgamos em ampliar o patrimônio e atender a tudo o que existia no mercado, como se isso fosse a solução do nosso negócio. De fato, não usamos a inteligência. Toda vez que há uma oferta maior do que a demanda, a tendência é os preços caírem pela regulação do mercado.

O excesso de oferta de caminhões, somado às margens que já vinham apertadas pela alta no preço do óleo diesel, pressionou ainda mais o valor do frete, e fez com que nos deparássemos, mais uma vez, com um cenário de instabilidades, agravado pelo tabelamento do frete que pautou o setor pela improdutividade. Eu deixo de competir pela qualidade da minha prestação de serviços ou pela minha expertise de negócios, e passo a competir, simplesmente, pela oferta ou não de caminhões, e se o cliente vai me contratar ou não para fazer o transporte. Isso é assustador. 

O principal equívoco do tabelamento é o de não ser um piso mínimo, e sim de um piso máximo. A tabela poderia existir, se de fato, fosse um piso mínimo que garantisse ao motorista não ter prejuízo, e que ao mesmo tempo, possibilitasse margem para ser negociada. Se eu perguntar para todos os meus amigos transportadores se alguém consegue praticar um frete acima da tabela, tenho quase certeza de que todos responderão que não. Então, ela não é uma tabela de piso mínimo. É uma tabela máxima.

Precisamos regular essa tabela com valores mínimos que sejam acessíveis ao mercado e pautada para transportadoras e autônomos. Dessa forma, podemos regularizar o mercado à nível de qualidade. Se você tem uma transportadora que presta serviços com qualidade, conseguirá cobrar acima do piso mínimo. E se você não tem a expertise do seu negócio, vai trabalhar muito mais próximo do piso mínimo. Do jeito que está, não permite um livre mercado e nem incentiva a melhoria do transporte. 

 O impacto causado pelo tabelamento tirou o nosso foco da eficiência na prestação de soluções logísticas e desestabilizou o nosso planejamento. Hoje, a gente não sabe se aposta no crescimento por meio dos autônomos ou no crescimento por meio da frota. Os clientes de carga fracionada que não querem pagar carga lotação dentro do piso mínimo, estão buscando novas alternativas de transporte na cabotagem. 

Investimento em pessoas e tecnologia  

Os investimentos em tecnologia e qualificação de pessoas continuam na nossa mira, mesmo diante das incertezas do mercado e da instabilidade política e econômica do país. As pessoas são essenciais ao nosso negócio e sabemos que quanto maior a automatização dos processos, mais gente teremos pensando no negócio para encontrar soluções. Nossa exigência é a busca pela qualificação dos funcionários para que eles possam, de fato, dividir conosco soluções para elevar a lucratividade e crescermos cada vez mais. Unimos tecnologia e qualificação de mão de obra para oferecer uma boa prestação de serviços. Aí sim, a gente consegue se diferenciar no mercado. 

Caminhões elétricos 

Estamos atentos às iniciativas e investimentos de empresas que já fizeram aquisições de veículos elétricos para coleta de lixo, por exemplo. Acredito que os veículos elétricos são um caminho sem volta. Energia limpa para o nosso mundo hoje é um caminho sem volta, desde as nossas residências aos caminhões, e em outros segmentos que a gente nem imagina que vão precisar se renovar energeticamente.

Com os altos custos do transporte e os malefícios causados ao meio ambiente, não tenho dúvidas de que antes de dez anos, os veículos elétricos vão sacudir o mercado e o país com uma frota considerável, principalmente de veículos comerciais para fazer o atendimento logístico nos grandes centros urbanos. Automóveis e caminhões serão cada vez mais participativos da era digital.

Os veículos vão estar pensando junto com a gente para facilitar relatórios de telemetria com informações que agregam valor ao nosso negócio. Com as tecnologias focadas no desenvolvimento da população, acredito que não dependeremos tanto do serviço do transporte. Há dez anos, não se imaginava que uma tecnologia pudesse mudar tanto o nosso dia a dia como aconteceu depois do Uber. Outras tecnologias surgirão nesse sentido com novos players como substitutos dos processos que já existem. 

Infraestrutura 

Estamos buscando renovação, mas desconfiados do que vem por aí. Acredito que se deixarmos de lado a atuação do governo para pensarmos de uma forma mais macro, teremos redução do custo do transporte rodoviário, marítimo e ferroviário em todas as instâncias. Vemos o nosso país muito preocupado com a politicagem e com negociações que não refletem bem algum ao mercado.

Como empresário, torço para que os nossos governantes enxerguem que sem infraestrutura, o mercado não se desenvolve, e as greves de autônomos continuarão, assim como os aumentos do diesel, elevando ainda mais o nosso custo logístico, que já é inviável. Somos reféns das estradas esburacadas, sem controle de tráfego efetivo e estatísticas crescentes de assaltos e violências. Fazemos há cinquenta anos do mesmo jeito. Precisamos modernizar todos os centros de distribuição, o conceito de entrega com caminhão, mão de obra, sistemas de informação e de integração. Precisamos pensar mais no compartilhamento com visão de longo prazo. Todo mundo pode ganhar se usarmos melhor as estruturas existentes no mercado. 

Expectativas 

Nos últimos 5 anos, percebo um sentimento diferente da população e mesmo que não vejamos mudanças efetivas nessa eleição, a população está mudando sua visão e sabe que precisa participar mais para encontrar novas soluções. Esse sentimento, eu não tinha nas duas últimas eleições. Com as redes sociais mais atuantes, tenho a esperança de um novo movimento e de que novas ideias surjam para conseguirmos pressionar os governantes a trabalharem de uma forma diferente.

Tenho um pensamento positivo que nos próximos oito anos, estaremos vivendo de um jeito bem diferente de agora. Eu faço parte da COMJOVEM e mantenho contato com jovens empresários. Esse é um dos pré-requisitos para se evoluir ainda mais. Há muitas empresas familiares nesse mercado e os jovens estão buscando participar mais dos negócios da família para trazer renovação. O caminho é abrir espaço para juventude e trabalhar com todas as gerações em conjunto. É assim que o nosso país vai pra frente. Não adianta a gente acreditar que virá o salvador da pátria se a gente não fizer a nossa parte.

 

 
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