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Parceria entre brasileira e chinesa deixa o transporte mais elétrico e limpo

02/10/2018 14h26 Atualizado em 11/10/2018 00h32
 

Por Maria Alice Guedes

malice@transpodata.com.br

A busca por novas tecnologias de utilização de energia renovável ou não poluente possibilitou a aproximação entre as duas empresas -  a brasileira Corpus Saneamento e Obras e a BYD do Brasil - que já detinha a tecnologia de veículos movidos a energia elétrica. Fundada em 1987 pelo engenheiro Cineas Feijó Valente, a Corpus atua no mercado nacional em gestão de limpeza urbana e gerenciamento de resíduos, com mais de 9 mil colaboradores.

Segundo André Lima, diretor administrativo da Corpus, o resultado do primeiro caminhão BYD eT8A 100% elétrico, adquirido em outubro de 2016, superou de tal forma as expectativas que a Corpus acabou acelerando a aquisição de novos equipamentos e fechando um compromisso de compra de mais 200 caminhões para utilizar o mais rápido possível. "Com o uso de um equipamento elétrico, deixamos de jogar na natureza 14 toneladas de CO2 que multiplicado por 200 caminhões, evitaremos jogar 2800 toneladas por mês na atmosfera. Imagine isso em todas as cidades onde executamos serviços. Nós somos uma empresa que faz gestão ambiental e gestão de resíduos, não podemos circular com um equipamento que, ao mesmo tempo que limpamos, poluímos a natureza com CO2. Estamos falando de um ganho imensurável que vai muito além do econômico”, diz.

A indústria do diesel está passando por uma transformação gigantesca e uma reavaliação da sua cadeia produtiva. A pressão da sociedade civil e dos governos por energias renováveis em todo o mundo, está acelerando a chegada dos veículos elétricos, principalmente dos que fazem uso intensivo de energia como caminhões e ônibus, os maiores emissores de CO2 e de muitos outros poluentes.

Em 2016, os caminhões lançaram no ar 84,5 milhões de toneladas de CO2, mais do que todas as termelétricas fósseis em operação no país (54,2 milhões de toneladas), segundo a análise do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa). O relatório mostra que a frota de caminhões foi o principal emissor de poluentes climáticos do setor de energia no Brasil. Caminhões de lixo são os que mais emitem dióxido de carbono, cerca de 1,24 kg de CO2 por quilômetro rodado.

Cerca de 1,3 milhão de mortes no mundo são causadas pela poluição urbana (OMS). Só em São Paulo morrem 4 mil anualmente. Segundo o professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Paulo Hilário Nascimento Saldiva, as duas causas fundamentais do problema são o caráter segregador da ocupação do solo nas metrópoles, e a falta de políticas públicas que privilegiem o transporte público eficiente, rápido e barato. 

O trafego é, portanto, uma das condições mais predisponentes para desenvolvimento de doenças respiratórias e stress. Por isso a China está na liderança absoluta da eletrificação. Há quem duvide que os elétricos cheguem em grande escala ao Brasil nos próximos cinco ou dez anos, enquanto outros já implementam as novas tecnologias.

O caminhão do lixo passou ou não passou?

Um fato pitoresco aconteceu logo que a Corpus começou a operar com os elétricos na coleta de resíduos no município de Indaiatuba. A Central de Atendimento da companhia começou a receber ligações de pessoas, dizendo que o caminhão de lixo não havia passado. A reclamação aconteceu porque elas não escutavam mais o barulho do caminhão subindo a rua. O ruído do caminhão elétrico, em torno de 66 decibéis, é muito abaixo do movido a diesel.

A aquisição da Corpus representa um marco na história da indústria automotiva brasileira,segundo Carlos Roma, diretor de vendas da BYD do Brasil. "É a primeira empresa no mundo ocidental a formar uma frota dessa magnitude de veículos totalmente elétricos para a realização do serviço de coleta e processamento de lixo, o que destaca seu compromisso com a sustentabilidade, preservação ambiental, bem-estar da sociedade e das comunidades atendidas”, afirma.

A chinesa BYD (Build Your Dreams), fabricante mundial de baterias recarregáveis, sistemas de armazenamento de energia, ônibus e caminhões 100% elétricos, presente em cinco continentes e mais de 50 países, foi fundada em 1995, e tem mais de 220 mil funcionários distribuídos em 40 fábricas ao redor do mundo. Com 20 mil engenheiros pesquisadores, é a segunda maior fornecedora de componentes para celulares, tablets e laptops para outras marcas globais. No Brasil, desde 2015, a companhia fabrica ônibus elétricos, painéis solares e comercializa veículos e empilhadeiras em Campinas, interior de São Paulo.

Veículos a diesel e elétricos

O consumo dos caminhões elétricos chega a ser até sete vezes mais eficiente do que o equipamento movido a diesel, afirma André Lima, levando-se em conta, principalmente o menor desgaste do equipamento que prescinde de componentes como motor a combustão e correias, que são os de maior desgaste no caminhão movido a diesel. "O equipamento roda, efetivamente, nos dois turnos de limpeza, cada qual com oito horas de trabalho, e demanda uma carga por turno. Dependendo da utilização, regenera a energia, retornando com cerca de 25% de capacidade", diz. 

Segundo André, o custo de manutenção de um equipamento elétrico é de 1/3 do equipamento movido a diesel e, portanto, ao longo da utilização, ele se paga com certa facilidade. Com uma frota de 700 equipamentos, ele estima que quando 1/3 dela estiver operando com os veículos elétricos, vai representar um enorme ganho em escala de economia operacional e redução do impacto de poluentes no meio ambiente.  

Durabilidade e Infraestrutura das baterias

Para recarregar as baterias, a Corpus tem um eletroposto que nada mais é do que uma tomada elétrica ajustada para o equipamento que carrega em até duas horas, sendo que os próximos caminhões carregarão em ainda menos tempo. A vida útil das baterias, estimada em quarenta anos, diz - começa a sofrer uma perda somente após vinte anos de utilização, sendo reciclada, posteriormente, pela BYD. A fábrica da companhia em Xangai, segundo Carlos Roma, tem capacidade para reciclar todas as baterias de fosfato de ferro lítio, através de um grande contêiner de baterias (Energy Storage) que serve para regular frequência e reutilizá-las em outras operações.

Novos projetos

A Corpus está investindo em outros projetos para os próximos anos que visam utilizar essas baterias para armazenar energia solar. A ideia é o total aproveitamento de energia para fechar o ciclo completo de abastecimento dos caminhões, através da obtenção de energia elétrica dos aterros sanitários.

Para atender contratos privados que tem com as indústrias, a companhia pretende fazer uso de outros equipamentos rodando sobre chassi elétrico, assim como a operação de coleta de resíduo hospitalar que hoje é feita com furgão elétrico. Uma segunda geração de desenvolvimento que consiste no conjunto de bombas ainda mais silenciosas, visando maior redução de consumo de energia elétrica, está sendo implementada e será levada, inclusive pela BYD à China, para ser utilizada em outras operações em grande escala com veículos de porte médio e pesado. "Daqui um ou dois anos, não será surpresa se outras empresas estiverem comercializando as baterias da BYD, que tem um diferencial bastante agressivo em termos de tecnologia”, afirma André Lima.

Quanto às baterias para caminhões que percorrem longa distância, segundo Carlos Roma, ainda representa um problema. "Para um caminhão rodar 3 mil km, ao invés de transportar 70 toneladas de carga, levaria quarenta porque o resto seria bateria. Por isso o foco da empresa está nas operações de curta distância até 400 km”, diz.

Custo Total da Propriedade

A aquisição de caminhões elétricos não se baseou no custo unitário de R$ 1,5 milhão, preço do caminhão elétrico BYD, porque não fecharia a conta. O balizamento foi pelo menor Custo Total de Propriedade (TCO) ao longo dos contratos estabelecidos.

Segundo André Lima, ao comparar o custo de um equipamento a diesel com o elétrico, ‘se não calcularmos a economia gerada em manutenção, a conta não fecha, até mesmo em função das isenções e vantagens oferecidas na compra de equipamentos a diesel. "A gente paga mais caro pelo caminhão, mas ao longo da utilização da vida útil, considerando nossos contratos de cinco a seis anos, os caminhões se pagam com uma grande vantagem”, diz.

Há uma série de barreiras que, segundo ele, ainda precisam ser ultrapassadas. Entre elas, o teste de opacidade que levou quase dois meses para se conseguir aprovação. “A inspeção veicular ainda não está pronta para as novas tecnologias”. Ele diz que a inspeção foi à empresa para testar a fumaça do caminhão, mas como se trata de um caminhão elétrico que não emite fumaça, ele enfrentou dificuldades de aprovação e liberação para rodar com o equipamento.

Desafios referentes ao seguro e à legislação evidenciam que as seguradoras também não estão preparadas para atender situações desse tipo. Os impostos cobrados pelo governo para os caminhões elétricos ainda são os mesmos dos equipamentos a diesel - lembrando que parte dos impostos é devido à emissão de poluentes. Frente a essas objeções, a Corpus teve que decidir se investia ou esperava mudar a legislação. "A indústria de equipamentos a diesel ainda é muito forte e temos um caminho longo a trilhar para os equipamentos movidos a energia limpa, não apenas com os elétricos, mas considerando todas as energias renováveis possíveis de movimentar esses equipamentos. Acredito que seja um caminho sem volta, porque em 2030, ou no mais tardar 2045, todas as montadoras de veículos terão que pôr fim a esses equipamentos, o que ocorrerá antes na Europa, depois nos EUA, e consequentemente, na América Latina”, afirma André Lima.

Treinamento e qualificação

Há uma curva de aprendizado em todas as tecnologias e por sair na frente, a Corpus teve que investir expressivamente em seus colaboradores. "Essa tecnologia é inovadora não apenas para a coleta de resíduos. Para quem dirige é muito mais agradável e confortável, gerando menos desgaste para os nossos motoristas que foram treinados para entender o conceito de frenagem que ajuda na regeneração da energia das baterias, entre 25% a 30% durante o percurso, dependendo da maneira como eles utilizam o freio. O torque também é importante. No caminhão a diesel existe um deslocamento mais lento de partida, enquanto que no elétrico sai com torque máximo de 1500 Nm a partir de zero rpm”, explica Lima.

A respeito das futuras soluções energéticas, dependendo da utilização, ele acredita que surgirão várias outras híbridas, baseadas na política industrial do país, mais do que em tecnologias possíveis. Ele diz isso porque a opção de gás fez parte da análise da companhia, simultaneamente à da energia elétrica, enquanto que o etanol, mesmo considerando-se como uma boa alternativa para o mercado brasileiro, a companhia nem cogitou analisar porque a indústria nacional e o governo nunca tiveram interesse efetivo em desenvolver essa tecnologia no Brasil.

Para Carlos Roma, outras tecnologias surgirão porque estamos passando pela maior revolução da indústria de todos os tempos com eletrificação, veículos compartilhados e direção autônoma. Algo completamente diferente de tudo que vimos nos últimos cem anos e que veio para transformar o mundo já e não daqui a 20 anos. Para isso, os três sonhos verdes da BYD são captar a energia do sol e transformá-la em eletricidade através dos painéis solares fabricados em Campinas - armazenar essa energia nas baterias e utilizá-la na infraestrutura de mobilidade, considerando carros, caminhões, ônibus, empilhadeiras, rebocadores e tudo o que se move.

 

 
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